Na pontinha da orelha – Conto de Dalton Trevisan

By | 15/11/2021

Nelsinho abriu o portão, equilibrou-se nos tijolos soltos e, diante da porta, conchegado no saco de estopa, onde limpava os pés, deu com o Paxá. Tarde o cachorro descobriu que era ele, havia rolado os três degraus com o pontapé. Velho e doente, nem rosnou, apenas gemeu de dor; tremulo, arrastando a perna, perdeu-se no fundo do quintal. O rapaz bateu na porta e, sem esperar, entrou na cozinha deserta. Ouviu as vozes do rádio e, pontinha de pé, dirigiu-se para a sala.

Do corredor espiou a velha na cadeira de balanço, tigela erguida ao peito, a engolir com avidez o caldo de feijão. Imóvel à porta, ele não a tinha enganado: a velha sorvia ruidosamente a sopa, sem deixar de seguir a novela. Nada que denunciasse a atenção – nem piscar de pálpebra, nem arfar de narina, escancarada a boca quando a colher ainda na tigela -, sabia de sua presença desde que saltara do ônibus na esquina. Sob a ladainha dos atores percebia o chio do sapato na areia, o leve toque na porta. Jamais lhe deu as costas – não seria ela, velha matadora, quem se descuidasse do touro. O herói espreitava o dia em que a surpreendesse no sótão, à beira da escada…

– Boa noite, dona Gabriela. Já veio a Neusa?

– Trocando de roupa. – E segundo a regra do jogo: – Que susto, meu filho, me pregou! – e a colher raspava o fundo da tigela. – O Paxá, coitado, não tem força de latir.

Aviso de que não subestimasse as velhas matadoras: sabia do pontapé no guapeca do coração. Depositou a tigela na mesa do lado. Mão trêmula, alcançou o copo.

– Tomando sua cervejinha, dona Gabriela? Expressão obscena de gozo, bebia de olho fechado.

– Ganhei do Noca.

– A primeira?

– É, sim.

– Acabou a garrafinha de rum?

Bigode de espuma na boca encarquilhada.

– Fale baixo, a Neusa escuta.

Exibiu entre as raízes podres o último canino amarelo.

– Um restinho só.

– Que tal mais uma?

– Minha perdição é você, meu filho. Emprestada, hein? Faço questão de pagar.

– O Zezinho não aliviou a carteira?

– Nem queira saber.

Suspiro nas entranhas da velha, que emborcou o copo. Apressou-se o rapaz em servi-la.

– Bem que escondi – e deu um arrotinho. – Essa tosse. Quero ver se descobre.

– Tem muito dinheiro, não é?

A velha girou o rosto – não desvie o olho, conde Nelsinho, que está perdido.

– Ai de mim. Tivesse dinheiro, estava gemendo e sofrendo nesta cadeira?

Pensa que tenho, é?

No buço da velha secavam as bolhas de espuma.

– Quer outra garrafa?

O dedinho inchado de nós catou fiapos da saia.

– Conte para ninguém, meu filho. Senão eles escondem. Não me dão um gole.

– Fique descansada. É segredinho.

– Cuidado, a Neusa.

Ele virou-se, não disfarçou a careta de desgosto.

– Que foi, meu bem?

– Esse vestido.

Até que engraçadinho, xadrez azul e preto.

– Que é que tem?

– Sabe que tenho pavor.

– A virgem há que fazê-la rastejar. Lavar meu pé, enxugá-lo no cabelo perfumado.

– Quer que mude?

Alguma vez iria enfrentá-lo, não hoje:

– Bobinha de mim.

Neusa ergueu-se para beijá-lo. Ele voltou o rosto e, franzindo a sobrancelha, designou ali a múmia, pescoço torto a fim de aproveitar a última gota. A garrafa vazia deixou a velha amarga. Mal o percebeu instalado na cadeira:

– Ai, meu filho. O que é a doença. Deus te livre sofrer como eu. Velho pode morrer, ninguém liga.

Cruz na boca, ó diaba agourenta.

– Disse bem, dona Gabriela. Cadê o pessoal?

– Lígia no cinema com o Artur.

– E o Zezinho?

– Acha que podiam ir só os dois? Afogá-la no barril de rum – ela e o chantagista do Zezinho.

– Não tem medo de ficar sozinha?

Ela reclinou-se na cadeira, à mostra o tornozelo inchado – um labirinto de grossas varizes roxas.

– O velho sempre só. Nem queira saber o que é viver assim. A ninguém desejo o que sofro. Eu que sei. Isso não é vida. Deus me perdoe. Deus não existe. Se existisse, me deixava tanto sofrer?

Faraó sentado no sarcófago, crispava no joelho pontudo a mão transparente. Ali grudadas duas, três moscas.

– Justo cada um pague os seus pecados. Não eu, que nunca desejei mal. Me matei de bater roupa no tanque. Gastei os dedos de esfregar a chapa do fogão. Perdi os olhos de costurar à noite. Se alguém devia sofrer não eu – era o Carlito. Devia ter acontecido para o Carlito.

– Ele não morreu?

– Levou uma vida feliz. E não sofreu para morrer. Os dias bebendo com as vagabundas. Me arrebentei de trabalhar, condenada a esta cadeira. Ele se regalou e morreu na força do homem.

– Morreu de quê?

– Tumor na cabeça. Sem ninguém. Pedindo o meu perdão. Que o fosse ver na hora da morte. Rezei no velório, isso sim. Perdoar é que não.

Mão no bolso, Nelsinho batia-se pela saleta, encurralado. Fingindo admirar a Santa Ceia, careta medonha para o papagaio pesteado. Apontou- lhe espingarda imaginária na nuca. Se bem não espantasse as moscas, ela coçou o alvo no pescoço. – Me ouvindo, meu filho? Não queira ficar igual a mim. Fui moça feito você.

Lá estava a praguejá-lo, rainha louca. Bem feito, castigo do céu.

Sempre a falar, dirigiu-se à escada, abriu a porta da despensa. Um passo na escuridão, dobrou a cabeça e, sem acender a luz, afastou as latas de açúcar, feijão, arroz, desentranhou outra garrafa.

– Reze por mim, meu filho. Não sei o que é dormir. Sentada na cama, à escuta… A bulha do morcego. Um grilo preto no canteiro de couve. Lá no degrau os dentes do Paxá estalando. Se não é a cervejinha…

– Não se trata com médico?

– Única esperança é um milagre.

Fez-se o milagre: Neusa assomou à porta. Num salto o rapaz agarrou-lhe a mão. Atravessando o corredor, arrastou-a para a sala vizinha; primeiro exibiu a língua para a velha, entretida em derramar a bebida sem fazer espuma.

Tirou o paletó, estendeu-se com gemido no sofá. Neusa fechou a janela – Zezinho, oito anos, era o olho da diaba. Ao erguer o braço, a blusa branca revelou nesga de carne: sei que não devo, muito magro, uma tosse feia – se não me cuido, nasce cabelo na palma da mão. A bela sentou-se na ponta do sofá, ele cruzou os pés na mesinha.

– Por favor, Neusa. Nunca me deixe só com ela. Para aguentar tua avó precisa ser santo. Por que não serve vidro moído na sopa?

– Fale baixo. Ela escuta.

– O rádio ligado.

– Ela entende através da parede.

– Bem desconfiei. Ouviu o pontapé no Paxá.

– É bruxa.

– Mudá-la para o sótão. Acaba rolando da escada.

– Não diga bobagem, querido. Chega dessa velha horrorosa.

– Que você fez?

Abriu os braços no espaldar. Neusa apoiou a cabeça no seu ombro.

– Trabalhei.

– Faz tempo que chegou?

– Pouco antes de você.

– Teu patrão paga extraordinário?

– Nem um tostão.

– Não quis se fazer de engraçadinho?

– Seja bobo, querido. É casado.

– E daí?

– Tenho noivo particular.

– Como é que ele sabe?

– Você nunca foi me esperar?

– Que foi que falou?

– Achou você muito simpático. Até pergunta quando são os doces.

Ah, os doces, e? Esses doces, quem vai comer é o Paxá. Ela aninhou-se no peito e, erguendo a cabeça, beijou-o na pontinha da orelha.

– Tenho de esperar muito, querido? Não posso com essa diaba.

– Faça isso não. Todo arrepiado.

A moça prendeu-lhe a cabeça nas mãos, deu um beijo frenético: a língua se oferecia no lábio entreaberto.

– Não para de chupar bala de hortelã.

– Quer que jogue?

– Mania essa!

A oportunidade de me salvar: fazer uma cena e adeus, beleza!

– Não fique bravo, meu bem.

Com os olhos procurou um lugar: o vaso de violetas? A janela, fechada.

Fitou-o chorosa.

– Que eu engula?

– Se gosta de mim, engole.

Deglutiu a bala inteirinha. Doeu, uma lágrima saltou de cada olho. Esta não me escapa – é minha.

– Falei brincando.

– Tudo que você quiser.

– Tudo, Neusa? Tudo mesmo? Ofereceu-lhe, sim, a boca inchada de beijos.

Crisparam-se as mãos do rapaz no espaldar – sei que não devo, é loucura. A velha na saleta, assim não adianta xarope de agrião. De leve afagou o braço lisinho. Sabe o delírio de uma carne em flor? A mão escorregou – sou fraco, Senhor, não mereço – até empalmar a pêra descascada do seio. O que é prender um pintassilgo no alçapão? O herói apertou a pálpebra: o biquinho do pintassilgo beliscava a mão do dono.

Esmagada pelo abraço, a moça libertou uma das mãos e introduziu-a sob a camisa – cinco patinhas úmidas de mosca a arrepiá-lo da nuca à ponta do pé. Derretido de gozo, comprimiu segunda vez a pálpebra – uma cóceguinha no céu da boca, prestes a uivar.

Estalavam as molas do sofá. Ó Deus, se a velhota, de repente? Sentou-se penosamente, suportando o peso da moça. Ofegante, respirou de boca aberta, dedo tremente abriu a blusa. Afastou-a do sofá para desprender a blusa, espirrou o sutiã no colo da moça. Sempre nova a descoberta do pequeno seio, metade exata de limão – e precipitou-se para beijá-lo. Diante do peito alvacento de pombinha as dores do mundo perdiam o sentido.

Mal o tempo de esconjurar a velha – afogado que afunda terceira vez a cabeça – e rolou, e rolaram os dois pelo sofá, pequeno demais para os acolher. Não podiam deitar-se, suspendeu-a pela cintura, ficaram de pé.

Largou-a um instante, com repelão desfez-se da camisa. Beijou a bela que desfalecia, filhotes famintos roubando alimento um da boca do outro. Mão frenética nas prendas deliciosas, encontrou a lasca da saia, libertou o único botão. Aos poucos a saia preta devassava a calcinha rósea. Um passo atrás, a saia deslizou ao pé da moça: Neusa ai, Neusa! Cheia de aflição, gemeu baixinho – Por lavar, por favor! Desesperado – tomara a velha pense que é o Paxá -, ergueu-a com as duas mãos, que ficasse do seu tamanho. Ela entendeu, alçou-se na ponta do pé, um coube direitinho no outro.

O herói pairou a nove centímetros do chão. Ao tatalar da asa da loucura: Qual é teu nome? Responda depressa: Quem é você? Depressa — e antes que pudesse, dona Gabriela entrou na sala.

Separaram-se, cambaleando cada um de seu lado. O coração de Nelsinho disparou a mil por minuto. Uma veia, de que nunca suspeitara, latejava na testa a ponto de rebentar: Me acuda, mãe do céu.

– Que é… a senhora quer, vovó?

Da garganta de Neusa – não era a sua voz. A velha recolheu o braço estendido, balançou a cabeça em silêncio, olho bem aberto. Na teia escura de rugas lampejo azul de desconfiança.

– Por que tão quietos?

O herói estupefato diante da velha que os enfrentava sem piscar.

– Por que está de pé, menina?

– Eu… trocando a lâmpada.

– O foco queimou?

– Agora mesmo.

– Vocês se comportaram? O Nelsinho é de confiança. O que esperando, minha filha? Pegue um foco na despensa.

Neusa pisou o monte de roupa. Ao alcance da megera, junto da porta. Agora estende a mão, agarra a menina – tenho de fazer uma carnificina. Quase um grito, para que o olhasse:

– Quer que eu – a voz partiu-se, continuou sem fôlego – outra cervejinha?

– Muito gentil, meu filho. Daqui a pouco… Se soubesse. Tão só, lá na sala. Uma dor fininha no coração. Pensei que era o fim.

A moça tornou de mansinho, o seio na mão:

– Aqui o foco, vovó.

Descalçou o sapato, subiu na cadeira:

– Pronto.

Sentou-se ao lado do rapaz, que enxugava o suor frio da testa. Sempre a vigiar a velha, quase sem vê-la, óculo embaçado. Com um suspiro, a anciã afundou-se na poltrona, repuxou o xale negro polvilhado de caspa.

– Ah, minha filha, você soubesse… Contava para o Nelsinho – e o pé sacudido por tremores, um pangaré que espantasse as varejeiras. – Pagando o pecado de outro. Ah, meus filhos, o que é sofrer como eu – e deu um arroto.

A bruxa de pilequinho.

– Mais uma garrafa, dona Gabriela? Mil garrafas não a fariam calar a boca.

– Gosto de você, Nelsinho. Como de um filho. Deus o livre e guarde da minha doença. Reze por mim.

Derrotado, baixou a cabeça, prendeu três botões da camisa,

– Não queira ficar como eu. Só eu sei. Isso não é vida.

Observando a avó cega e concordando com ela – Sim, vovó. Pois é, vovó. É sim, vovó – Neusa desabotoou um, dois, três botões e voltou a beijá-lo na pontinha da orelha.

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