Anão de jardim – Conto de Lygia Fagundes Telles

A data na qual fui modelado está (ou não) gravada na sola da minha bota mas esse detalhe não interessa, parece que os anões já nascem velhos e isso deve vigorar também para os anões de jardim, sou um anão de jardim. Não de gesso como pensava a Marieta, Esse anão de gesso é muito … Ler mais

A disciplina do amor – Conto de Lygia Fagundes Telles

Foi na França, durante a Segunda Grande guerra: um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à … Ler mais

O Jardim Selvagem – Conto de Lygia Fagundes Telles

– Daniela é assim como um jardim selvagem — disse o tio Ed olhando para o teto. – Como um jardim selvagem… Tia Pombinha concordou fazendo uma cara muito esperta. E foi correndo buscar o maldito licor de cacau feito em casa. Passei a mão na tampa da caixa de marrom-glacê que ele trouxera. Era … Ler mais

Antes do Baile Verde – Conto de Lygia Fagundes Telles

O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís xv e sua porta- estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e … Ler mais

Helga – Conto de Lygia Fagundes Telles

Ela era uma só. Não havia outra e se quisesse compará-la com alguma coisa, seria com os tenros cogumelos dos bosques ou com as manhãs de bicicleta nas estradas impecáveis ou com as primeiras cerejas da primavera. Era uma, una, única, apesar de ter uma só perna, aliás bela como ela toda. Mas é cedo … Ler mais

Eu Era Mudo e Só – Conto de Lygia Fagundes Telles

Sentou na minha frente e pôs-se a ler um livro à luz do abajur. Já está preparada para dormir: o macio roupão azul sobre a camisola, a chinela de rosinhas azuis, o frouxo laçarote de fita prendendo os cabelos alourados, a pele tão limpa, tão brilhante, cheirando a sabonete provavelmente azul, tudo tão vago, tão … Ler mais

Um Chá Bem Forte e Três Xícaras – Conto de Lygia Fagundes Telles

A borboleta pousou primeiramente na haste de uma folha de roseira que vergou de leve. Em seguida, voou até a rosa e fincou as patas dianteiras na borda das pétalas. Juntou as asas que se colaram palpitantes. Desenrolou a tromba. E inclinando o corpo para a frente, num movimento de seta, afundou a tromba no … Ler mais

Apenas um Saxofone – Conto de Lygia Fagundes Telles

Anoiteceu e faz frio. “Merde! voilà l’hiver” é o verso que segundo Xenofonte cabe dizer agora. Aprendi com ele que palavrão em boca de mulher é como lesma em corola de rosa. Sou mulher, logo, só posso dizer palavrão em língua estrangeira, se possível, fazendo parte de um poema. Então as pessoas em redor poderão … Ler mais

Meia-Noite em Ponto em Xangai – Conto de Lygia Fagundes Telles

A longa bata de brocado azul caiu-lhe aos pés. Avançou nua em direção ao espelho de moldura de laca vermelha. Girou sobre os calcanhares para se ver de perfil. Levantou o busto. Encolheu o estômago. Olhando ainda para o espelho, como se convidasse a própria imagem a acompanhá-la, mergulhou na banheira. Cerrou os olhos, as … Ler mais

Verde Lagarto Amarelo – Conto de Lygia Fagundes Telles

Ele entrou com seu passo macio, sem ruído, não chegava a ser felino: apenas um andar discreto. Polido. – Rodolfo! Onde está você?… Dormindo? — perguntou quando me viu levantar da poltrona e vestir a camisa. Baixou o tom de voz. — Está sozinho? Ele sabe muito bem que estou sozinho, ele sabe que sempre … Ler mais

O Noivo – Conto de Lygia Fagundes Telles

As batidas na porta eram suaves. Mas insistentes. Ele abriu os olhos. Sentou-se na cama. – Emília? Você, Emília? A mulher demorou um pouco para responder. – Eu queria saber se o senhor já acordou. É que está chegando a hora… – Hora do quê? – Hora do casamento! – Casamento? Que casamento? – Que … Ler mais

Noturno Amarelo – Lygia Fagundes Telles

Vi as estrelas. Mas não vi a lua, embora sua luminosidade se derramasse pela estrada. Apanhei um pedregulho e fechei-o com força na mão. Por onde andará a lua? perguntei. Fernando arrancou o paletó no auge da impaciência e perguntou com voz esganiçada se eu pretendia ficar a noite inteira ali de estátua, enquanto ele teria que encher o tanque naquela escuridão de merda, porque ninguém lhe passava o raio da lanterna.